Foto: Mauricio Nahas
Saúde

Transtorno dismórfico corporal: Daiana Garbin fala sobre sua luta e trabalho com a doença

A busca incessante e desesperada para atingir padrões de beleza afeta o físico e a mente de milhares de pessoas no mundo todo. Um dos males que pode surgir como consequência disso é o transtorno dismórfico corporal, e o DaquiDali bateu um papo exclusivo com Daiana Garbin, jornalista, YouTuber e autora do livro “Fazendo as pazes com o corpo”, que lida com a condição desde a adolescência e hoje desenvolve um trabalho voltado para falar sobre a doença, “libertando” homens e mulheres através da informação e empatia. Na entrevista, ela fala como se sentia, quando viu que era hora de procurar ajuda e ainda deixa uma mensagem para quem está passando por isso.

Um resuminho rápido

Para você ficar mais por dentro, a nutróloga Liliane Opperman explica o que é o transtorno dismórfico corporal: “Também conhecido como dismorfofobia, se dá quando a pessoa tem uma alteração da percepção de si própria, ela vê defeitos que não correspondem à realidade. Se ela tem uma barriguinha, já se acha muito acima do peso, por exemplo. O tratamento é feito com o uso de medicamentos psicotrópicos para ansiedade e antidepressivos, e alinhado a isso soluções como terapia cognitiva comportamental, coach e reprogramação neuroliguística, no intuito de desfazer a falsa crença que o indivíduo possui sobre sua imagem”.

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Quando você percebeu que aquele incômodo com seu corpo era algo realmente sério, que deveria ser tratado?

Eu percebi que precisava de ajuda médica de 2014 para 2015, porque eu estava há quase dois anos comendo pouquíssimo carboidrato em uma dieta muito restritiva de 600 a 800 calorias por dia, e a minha relação com a comida virou um inferno: eu só pensava nela 24 horas por dia e em como não comer.  Então eu comecei a parar de ir aos lugares, a restaurantes e festas que eu sabia que ia ter muita comida, vivia fazendo muita ginástica e tentando comer o mínimo possível. Chegou um momento em que eu não aguentei mais e aí percebi que precisava de ajuda. Na minha primeira consulta com a psiquiatra, tive o diagnóstico de transtorno alimentar não especificado. Eu nunca imaginei que a minha relação doentia com meu corpo e a comida poderia ser um transtorno alimentar, porque está tão normalizado na nossa sociedade que quanto mais magra melhor, mais feliz, bonita e bem-sucedida que a gente adoece com isso e nem percebe. É socialmente aceito que você não se dê bem com a comida para alcançar esse objetivo.

Como você se sentia ao se olhar no espelho?

Desde muito pequena eu me sentia inadequada, grande e larga demais. Eu queria ser pequena, estreita, extremamente magra, aquela com os ossos aparecendo. Eu sempre acreditei que só seria feliz e realizada na vida no dia que eu fosse extremamente magra. Isso me levou a desenvolver o transtorno alimentar.

Que loucuras chegou a fazer para tentar emagrecer?

Durante a adolescência foi o pior momento, porque eu tentava ficar sem comer. Cheguei a passar alguns dias comendo só uma maçã e água, até desmaiar de fome, e como eu não conseguia controlar meu apetite, comecei a tomar muitos remédios para emagrecer, de que por muitos anos fiz uso abusivo, além de outros medicamentos, como diuréticos e laxantes. Depois realizei cirurgias plásticas, lipoaspiração, tratamentos estéticos muito agressivos, tudo fruto dessa relação muito conturbada com o corpo e a alimentação.

Isso prejudicou de algum modo sua relação com seu marido? Como ele lidou com isso?

Não, ele sempre me ajudou muito, inclusive a parar de tomar remédios para emagrecer. Ele sempre foi muito calmo, atencioso, compreensivo e me apoiou quando eu disse que precisava de ajuda.

Isso afetou sua carreira na TV? Por que você decidiu sair dela?

Não, porque apesar de toda vergonha e inadequação que eu sentia em relação ao meu corpo, nunca deixei a doença tomar conta totalmente da minha vida, que é o que acontece com muitas mulheres com transtorno alimentar. Elas param de trabalhar e estudar de tanta vergonha do corpo. Ainda que com essa mesma sensação, eu tinha algo dentro de mim que dizia “vai em frente, sim!”. Eu decidi sair da Globo porque queria criar o “Eu Vejo”, queria ter esse projeto, escrever meu livro, e seria impossível conciliar tudo.

Por que você decidiu abrir um canal para falar sobre isso?

Eu queria falar sobre a relação das mulheres com o corpo e a alimentação, de como elas estão adoecendo sem perceber, e sabia que o espaço para isso era a internet. Como elas estão aprisionadas nos corpos, nas dietas, nos tratamentos estéticos, nas cirurgias plásticas, buscando sempre uma beleza e uma magreza infinitas, sempre buscando a aprovação no olhar do outro. Essa mensagem que a sociedade passa, de só ser aceita quando tiver beleza e magreza, é muito perigosa e adoece as mulheres. É preciso começar a se libertar disso, a entender que o nosso valor como ser humano nesta sociedade, nas nossas casas e na nossa vida não está na aparência. Não dá mais para permitir ser julgada por isso, e dessa forma eu decidi criar esse canal. Esta é a nossa próxima revolução: enquanto permitirmos que a nossa autoconfiança e autoestima esteja no olhar do outro, não teremos paz.

Como tem sido o feedback desse trabalho na internet?

Tem sido maravilhoso. Tenho recebido mensagens lindas de mulheres que começaram a ver o corpo de outra forma e a questionar por que estão deixando a aparência tomar conta da vida. Elas relatam que perceberam como a gente pode, sim, gostar do nosso corpo como ele é, que ele não está errado por não ser igual ao das propagandas, cada mulher é diferente e tem sua beleza.

Eu a @ju_romano queremos te lembrar disso!! 👆👆👆👆👆😍😍❣️❣️❣️

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Que mensagem você tem para meninas e mulheres que estejam passando por isso ou simplesmente não se sintam confortáveis com a própria imagem? Como fazer as pazes com seu corpo?

Pegue o seu corpo de volta para você. Entenda que ele não é um molde de massinha que você pode mudar completamente e deixar igual ao da foto da revista ou do Instagram para ganhar elogios e curtidas. Você é um ser humano, com emoções, sentimentos e um corpo que representa sua história de vida, e nela, não existe essa perfeição toda. Tire da cabeça que seu corpo precisa ser uma imagem perfeita para ver no espelho e exibir nas redes sociais, ele é um lugar para você viver e ser feliz. Pegue o seu corpo de volta e trate-o com carinho, respeito e amor.

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