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Um dia de cada vez: entenda como lidar com o processo de luto

Perder é um verbo difícil de ser conjugado, pois em seu contorno tem tristeza, perguntas, frustrações e dor. A situação se complica ainda mais se essa perda envolve um alguém querido e amado. O que tinha sentido se desfaz, pois aceitar a finitude de uma relação envolve um processo psíquico chamado de luto.

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Antigamente, as mulheres usavam roupas pretas durante algum tempo para sinalizar o que estava acontecendo. Este costume cultural foi deixado no passado, entretanto, isso não quer dizer que, com o passar dos anos, ficou mais fácil encarar a morte. “O luto é um processo normal e esperado para a elaboração de uma perda significativa, seja ela real ou simbólica”, explica a doutora em psicologia clínica Luciana Mazorra, uma das sócio-fundadoras do Instituto 4 Estações, um centro especializado para o acompanhamento de situações de perdas e luto.

Foto: Ammentorp Photography/iStock
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Dia de Finados pode ser bem significativo para muitas pessoas, segundo a psicóloga. “Elas querem ir ao cemitério, que traz lembranças e memórias de quem se foi”. Essa intensificação da tristeza  em datas significativas é chamada de reação de aniversário e é normal que apareça. “Só é preciso estar atento e prestar atenção no quanto isso mexeu”.

Enfrentando a perda

Sendo um processo, o luto se apresenta de forma individual e particular em cada pessoa. Anteriormente, isso era dividido em fases, mas, de acordo com Luciana, essa ideia está ultrapassada. “O risco é que você tente enquadrar o enlutado naquilo”. Agora, de acordo com o modelo proposto por especialistas holandeses, quem enfrenta uma perda oscila entre dois movimentos. “São dois tipos de enfrentamento. Em alguns momentos, ele se lembra da pessoa que perdeu, com as emoções e a dor da perda. Em outros, vai ter que dar conta das tarefas cotidianas e práticas e das obrigações que essa perda promove. Como vai ficar a vida?”, aponta.

A especialista comenta que essa dinâmica entre as formas de encarar permite que luto seja elaborado. “Quando o enlutado fica de um lado só, ele tem dificuldade, que implica na complicação do processo”.

O chamado luto crônico é caracterizado por aquela pessoa que fica muito mais voltada para a perda. “Mesmo ao longo do tempo, a dor não se transforma”, afirma a especialista. Já o luto inibido é percebido naqueles que não entram em contato com as suas emoções. “Não dá para dizer qual deles seria mais perigoso. Ambos podem trazer riscos, pois em nenhum dos casos vai haver elaboração”.

Quem passa pelo luto fica mais fragilizado também fisicamente. Estudos mostram que sintomas físicos já foram associados aos enlutados, como problemas cardíacos e queda no sistema imunológico, por exemplo.

Foto: AntonioGuillem/iStock
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Aceitando a realidade

A imprevisibilidade do luto é consequência do quanto ele mexe com o emocional de cada um. “É o preço que a gente paga para ter vínculos e relações significativas. Não queremos perder. Então, é mesmo difícil ter que abrir mão de alguém”, fala.

A transformação da dor permite que o elo entre as pessoas nunca se desfaça, mesmo com a morte. “Com a aceitação da realidade, é possível manter uma conversa interna, um vínculo que fica. Hoje, tem se falado muito disso, da importância do que permanece”.

É importante lembrar que não há data de validade, ou seja, não existe uma duração específica. “O primeiro ano costuma ser o mais difícil, mas não tem o prazo”. Vai ser durante estes primeiros 365 dias que você vai viver pela primeira vez uma série de situações sem aquela pessoa ao seu lado. “É o primeiro tudo para uma série de datas significativas, por exemplo. Tudo é mais novo”.

Luciana reforça que isso não significa que o processo se elabora por completo em um ano. “O tempo não cura a dor do luto, mas para viver essa dor se precisa de tempo”.

A rede de amparo

Nestas horas, ter uma rede de apoio composta por familiares e amigos que apoiam e respeitam seus sentimentos é importante. “Muitas vezes, a pessoa não quer ser importunada, mas ofereça ajuda de alguma forma. Pode até ser para algo prático como levar os filhos na escola”.

A ajuda profissional deve fazer parte se o enlutado ou alguém próximo percebe que é preciso mais espaço para conversar sobre isso. “O apoio social vai minguando, mas o luto ainda está lá”.

A psicóloga especialista em cuidados paliativos Tânia Corrêa afirma que a espiritualidade e a religião ajudam neste momento. “Elas são estratégias de enfretamento”. De acordo com a profissional, participar de grupos de autoajuda formados por pessoas que já passaram por esta mesma situação também é um artifício de amparo.

Foto: Nuli_k/iStock
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Para as crianças, a verdade

Segundo Tânia, o entendimento sobre o ciclo da vida se fecha durante a adolescência. Por isso, é preciso ter cuidado na hora de lidar com os sentimentos que o fato vai acender em uma criança. “Embora elas não consigam identificar o conceito de morte, elas sentem a ausência, têm o mesmo conjunto de sinais e sintomas que um adulto pode ter, como crises de ansiedade e distúrbios do sono”.

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Uma sugestão dada pela psicóloga é propiciar momentos em que os pequenos possam ter suas emoções ouvidas e comunicar aos pais ou mesmo professores o que está incomodando. É preciso ter em mente a importância de nunca esconder deles o que está acontecendo, usando metáforas para a morte. “Nunca diga que o vovô está dormindo e vai demorar para acordar, que a vovó foi viajar e ninguém sabe quando volta ou que a mamãe virou uma estrelinha. Não trate o assunto com mentiras”.

Dependendo da idade do pequeno, ele pode frequentar os rituais após o falecimento de alguém. “Eles podem acompanhar desde que seja ao lado de uma figura com quem ela se sinta protegida. Explique sem fantasias e em uma linguagem próxima a deles o que vão encontrar e quem está li. Dê dados de realidade”, fala.

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