Ter tempo para ser criança é fundamental. Foto: ThinkStock
Conversa de Mãe

Desacelerar pode ser benéfico para os filhos. Conheça o slow parenting

Correria. Esta é, provavelmente, uma palavra que você usa para definir o seu dia-a-dia e o da sua família. Pais que correm, sem tempo para diversas outras práticas mais prazerosas, têm filhos que correm também. Mãe e pai trabalham o dia todo. As crianças se dividem entre a escola e as outras atividades extracurriculares. E, nessa correria, o que menos sobra é tempo para preparar uma refeição saudável, para rever a lição de casa, para brincadeiras e até mesmo para não fazer nada. Para resgatar esse tempo, surgiu o movimento slow parenting, que foi traduzido no Brasil como pais sem pressa.

Visando desacelerar a vida dos pais para impactar positivamente a vida dos filhos, os adeptos passam a valorizar de outra forma a relação entre pais e filhos, sem pressa de inseri-los no mundo competitivo e sem acelerar o desenvolvimento. “Eles querem resgatar a infância como período de aprendizado, com tempo livre para criar”, explica Daniela Piotto, pediatra da Vila da Saúde, do Fleury Medicina e Saúde.

O movimento é popular nos Estados Unidos e na Europa e vem ganhando apoio no Brasil. “Estes métodos defendem as brincadeiras criativas que apresentam conceitos de socialização”, afirma Julieta Guevara, psiquiatra e diretora do Neurohealth.

Ócio também faz parte da rotina das crianças. Foto: ThinkStock
Ócio também faz parte da rotina das crianças. Foto: ThinkStock

Muito estímulo, pouco resultado

O slow parenting bate de frente com a ânsia moderna dos pais em oferecer aos filhos uma série de oportunidades que o preparem perfeitamente para o futuro, começando pelos vestibulares. Essa preocupação excessiva gera o superestímulo, fazendo com que crianças – assim como os pais – tenham agendas lotadas de compromissos e aulas quando, muitas vezes, elas ainda não estão preparadas psicologicamente para ter. “Os pais desejam o melhor, o despreparo e a sociedade capitalista interferem e promovem essa ânsia de busca”, comenta Patrícia Bodoni, psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia, da Faculdade Anhanguera de Bauru.

Os especialistas afirmam que a rotina rigorosa das crianças pode transformá-las em adultos robotizados, frustrados e ansiosos. “Estímulos demais privam a criança da brincadeira”, fala a psicóloga. No futuro, é provável que esses miniadultos não consigam usar a própria criatividade ou mesmo ter jogo de cintura para lidar com situações coorporativas. Ou seja, o resultado pode ser exatamente o contrário do que os pais desejam.

Nestas situações, encontrar o equilíbrio é essencial. A escola já ocupa um bom tempo da vida das crianças. Saber inserir aquilo que é importante pode ajudar. “Já tem a agenda do colégio com as coisas primordiais. O inglês é importante, mas, se tem na escola, não precisa fazer de novo. A não ser que ela goste muito”, diz Daniela. Oferecer uma opção de atividade física também é necessário. Entretanto, na hora da escolha, use outro mandamento do slow parenting: ouça seus filhos.

Culto ao ócio

De acordo com Mário Novais, pediatra, diretor do hospital Daniel Lipp e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), muitos pais costumam achar que os filhos são superdotados. “No futuro, não vai importar com qual idade a criança aprendeu a ler”, fala. O médico ainda afirma que a criatividade é desenvolvida em cima de conhecimentos e experiências, e que é preciso permitir que os pequenos tenham tempo livre para chegar nestes resultados. E o ócio familiar é outro aspecto defendido pelo slow parenting.

Fazer nada em família é importante para criança e para as relações dentro e fora de casa. Com esta convivência, ouvir e perceber o filho fica mais fácil. “Eles dão sinais para nos dizer se estão bem. Ouça as dicas que eles oferecem”, orienta Patrícia.

A tecnologia é outro ponto criticado pelo slow parenting. Para os defensores do movimento, quanto menos, melhor. “Ao mesmo tempo em que a tecnologia ajuda muito a criança, pode dificultar. Além do mais, o próprio movimento defende o círculo social”, conta Patrícia.

Segundo Daniela, como os pais são exemplos para os filhos, não adianta você moderar o uso de tablets e smartphones se você mesmo abusa dos aparelhos enquanto está com eles. “Ponha na agenda que, em determinada hora, todo mundo vai ficar desconectado”, sugere a pediatra.

Desacelerar e não se preocupar tanto com o futuro podem ser atitudes importantes para um fortalecimento da relação entre filhos e pais. “Olhe para aquilo que o seu filho precisa no presente”, fala Patrícia.

Você deve dar o exemplo e deixar a tecnologia de lado às vezes. Foto: ThinkStock
Você deve dar o exemplo e deixar a tecnologia de lado às vezes. Foto: ThinkStock

Sete mandamentos

Carl Honoré é um jornalista e escritor britânico, considerado um ícone na filosofia do slow parenting. Ele já trabalhou com menores de rua brasileiros e seu livro “Under Pressure” (sob pressão, em português), que trata do assunto, já foi traduzido para mais de 30 idiomas.

De acordo com Honoré, existem sete mandamentos para o slow parenting.

– Crianças de até cinco anos não precisam de agenda, precisam de rotinas;

– A vida dos pequenos não deve ser de um miniexecutivo;

– A opinião da criança deve ser considerada na hora de escolher atividades;

– É preciso ter tempo para brincar;

– O tédio estimula a criatividade;

– Reserve um tempo para a família não fazer nada junta;

– Insira as crianças em círculos sociais, permita que elas tenham amigos.

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