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Ana Canosa Colunistas

Quando seguir o desejo ou manter o compromisso?

A mãe saiu com o intuito de levar o filho à casa de um amiguinho. No caminho, a mãe do amiguinho telefonou e, meio sem jeito, disse que havia mudado os planos: o filho dela acabara de ser convidado para uma tarde na piscina na casa de outra pessoa e ele estava querendo muito ir.

“Hã…mas deixa para lá, se você já saiu de casa então vem…”

No próximo farol, a mãe deu meia-volta e voltou pra casa.

Situação delicada, daquelas em que as pessoas envolvidas se veem divididas entre um compromisso assumido com alguém e o desejo, que sopra, como um vento, em outra direção. Aqui a cena ocorreu com quatro envolvidos, mães e filhos, mas outras situações sobre esse conflito podem ser facilmente aplicadas: o namorado que ia no cinema com você, mas não resistiu a um convite dos amigos; a amiga que te deixou na mão porque o ficante dela ligou. Para que a gente não alimente ressentimentos, nem crie um drama onde não tem, aí vão algumas questões para pensar.

Quando vale a pena manter o compromisso

Não valeria a pena ensinar ao menino que ia receber o amigo, que não dá para ter tudo na vida, que é necessário aguentar frustrações e que um compromisso assumido deve ser honrado até o fim? Ou será que, ao fazer isso, seríamos extremamente duras, construindo uma barreira nessa amizade, como se ela não pudesse suportar a ideia de ser preterido por um convite mais interessante?

Considerando que os dois meninos são amigos há anos, brincam sempre juntos, moram próximos e que o convite para brincar não envolvia uma logística muito complexa para os pais, conta-se, então, com a capacidade de empatia das mães – e dos filhos – em compreender o desejo infantil e relativizar. Entre brincar com um amigo habitual e passar um lindo sábado de sol na piscina, a segunda opção parecia, de fato, mais refrescante.

Seguir o próprio interesse é egoísmo?

Sim, a atitude foi egoísta e privilegiou apenas uma das crianças. A vida, porém, é cheia desses momentos nos quais você precisa avaliar se escuta os seus desejos ou se abre mão deles pela vontade de outras pessoas ou para seguir convenções sociais. Você acha que aquele que age segundo seus próprios interesses é um tirano? Em caso positivo, pense o quanto não questionar, negociar ou fazer valer o compromisso assumido pode reforçar um comportamento egoísta, colocando o outro mais como objeto e menos como sujeito de uma ação.  Como afirma Flávio Gikovate, os egoístas se ligam aos generosos, pois assim mantém-se ditando os rumos de tudo. Em relações mais igualitárias, como no caso dos garotos, permitir uma mudança não negociada nos planos foi só mais uma experiência que eles tiveram que lidar.

Levando em conta a intenção

Algumas reflexões nem precisam acontecer, dada a intimidade das pessoas envolvidas e a certeza da importância da sua pessoa para o outro. Mas e se tudo isso acontece em um dia em que estamos vulneráveis, com pouca autoconfiança e com uma autoestima frágil? Então, aconselho a lidar com a verdade e expor os sentimentos.

No caso das crianças, as duas coisas aconteceram: ao preferir ser sincera, a mãe ensinou para o garoto que queria passar o dia na piscina que a verdade é importante, que essas coisas acontecem e conversou com o filho sobre a possibilidade de o amigo ficar chateado com aquela mudança e que, portanto, ele devia tomar cuidado com o sentimento do colega e que estava assumindo um risco. Já a mãe do outro garoto preferiu também a verdade, ao contar que o amigo havia recebido um convite para fazer outro programa. É claro que o garoto ficou decepcionado, mas a mãe ajudou: “Se fosse você, o que preferiria? – A piscina. Então, o importante é que vocês são bons amigos e isso de vez em quando acontece. Já aconteceu com você também”.

Algum tempo depois, a mãe do menino que havia mudado de ideia mandou uma mensagem dizendo que estava com o “coração apertado” pelo ocorrido, demonstrando sensibilidade e preocupação com o amigo do filho e a relação construída. A outra respondeu dizendo que o filho havia ficado um pouco triste, sim (é importante não minimizar ou negar o sentimento gerado), mas que havia entendido a situação (sem drama, o que poderia fomentar a raiva e abalar a relação dos dois).  Fica claro que o que fez essa situação acabar assim, de maneira tranquila, é porque havia uma intenção positiva, de ambas as partes, de resolver da melhor maneira, uma forma que se encontra nas relações saudáveis, entre pessoas que se gostam e se querem bem.

Em situações assim, seja você aquele que propõe ou o que recebe uma mudança nas regras no meio do jogo, avalie a situação com calma e tente sempre deixar clara a sua intenção e os seus sentimentos.

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